Trecho de entrevista do filósofo norte-americano Jason Stanley à
Folha de S.Paulo em 7 de março de 2020 em que responde a questões que envolvem
imprensa e líderes autoritários.
FSP – Qual o papel da imprensa
diante de líderes autoritários?
JS – O
jornalismo investigativo é vital no momento, pois ele mostra que as campanhas
anticorrupção não são campanhas anticorrupção. O que vocês fizeram com o
[ministro da Justiça Sergio] Moro [em referência às reportagens da Folha a
partir de mensagens obtidas pelo Intercept Brasil] foi essencial, pois
revelou o que estava por trás da derrubada de Lula e Dilma.
O
fato de Moro ser importante para Bolsonaro me mostrou que deveria haver algo
errado, porque Bolsonaro obviamente não faz parte da campanha anticorrupção.
Foi um fracasso do jornalismo investigativo que Moro tenha conseguido a
reputação que teve, em primeiro lugar. A responsabilidade da imprensa é
acompanhar a corrupção e jogar luz sobre ela.
Também
não se distrair com a forma como um líder autoritário manipula a mídia. Um
líder autoritário dirá algo chocante justamente quando surgir alguma notícia
que ele quer ocultar. Observe quando e por que eles dizem o que dizem. Não
deixe que eles controlem as notícias.
Além
disso, a normalização não pode ser feita. O que está acontecendo aqui com Trump
é que os jornais normalizam seus comportamentos erráticos e estranhos, que são
preocupantes. Os jornais vão tentar entender coisas, como rompantes
ditatoriais, que em última análise não devem ser entendidas. Não tente dar
sentido a isso, mas sim noticie que é meio estranho o que está acontecendo.
FSP – Qual a relação de regimes autoritários com a imprensa?
JS – Em
última análise, Trump adora o New York Times. Ele o critica, mas ele precisa do
jornal e, francamente, o New York Times pode precisar dele. Escrevo artigos de
opinião para o New York Times desde 2011 e, neste período, o jornal ganhou
muito dinheiro. Eles se retroalimentam. Trump é um mestre em manipular o ciclo
noticioso.
O
fascismo envolve ler constantemente os jornais e ver o que está acontecendo, e
sempre há notícias de última hora. O fascismo transforma as notícias em
espetáculo, as pessoas ficam viciadas no drama —quem entrou, quem saiu, quem
foi demitido. É bom para as notícias, pois vende.
A
normalidade é diferente. Em uma democracia, as coisas são bem entediantes.
A íntegra
da entrevista está em:
https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/03/fascismo-faz-das-noticias-espetaculo-as-pessoas-estao-viciadas-em-drama-diz-filosofo.shtml
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