sábado, 21 de março de 2020

Entrevista de Jason Stanley - março de 2020


Trecho de entrevista do filósofo norte-americano Jason Stanley à Folha de S.Paulo em 7 de março de 2020 em que responde a questões que envolvem imprensa e líderes autoritários.

FSP – Qual o papel da imprensa diante de líderes autoritários? 

JS – O jornalismo investigativo é vital no momento, pois ele mostra que as campanhas anticorrupção não são campanhas anticorrupção. O que vocês fizeram com o [ministro da Justiça Sergio] Moro [em referência às reportagens da Folha a partir de mensagens obtidas pelo Intercept Brasil] foi essencial, pois revelou o que estava por trás da derrubada de Lula e Dilma.

O fato de Moro ser importante para Bolsonaro me mostrou que deveria haver algo errado, porque Bolsonaro obviamente não faz parte da campanha anticorrupção. Foi um fracasso do jornalismo investigativo que Moro tenha conseguido a reputação que teve, em primeiro lugar. A responsabilidade da imprensa é acompanhar a corrupção e jogar luz sobre ela.

Também não se distrair com a forma como um líder autoritário manipula a mídia. Um líder autoritário dirá algo chocante justamente quando surgir alguma notícia que ele quer ocultar. Observe quando e por que eles dizem o que dizem. Não deixe que eles controlem as notícias.

Além disso, a normalização não pode ser feita. O que está acontecendo aqui com Trump é que os jornais normalizam seus comportamentos erráticos e estranhos, que são preocupantes. Os jornais vão tentar entender coisas, como rompantes ditatoriais, que em última análise não devem ser entendidas. Não tente dar sentido a isso, mas sim noticie que é meio estranho o que está acontecendo.

FSP – Qual a relação de regimes autoritários com a imprensa? 

JS – Em última análise, Trump adora o New York Times. Ele o critica, mas ele precisa do jornal e, francamente, o New York Times pode precisar dele. Escrevo artigos de opinião para o New York Times desde 2011 e, neste período, o jornal ganhou muito dinheiro. Eles se retroalimentam. Trump é um mestre em manipular o ciclo noticioso.

O fascismo envolve ler constantemente os jornais e ver o que está acontecendo, e sempre há notícias de última hora. O fascismo transforma as notícias em espetáculo, as pessoas ficam viciadas no drama —quem entrou, quem saiu, quem foi demitido. É bom para as notícias, pois vende.

A normalidade é diferente. Em uma democracia, as coisas são bem entediantes.

A íntegra da entrevista está em:

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/03/fascismo-faz-das-noticias-espetaculo-as-pessoas-estao-viciadas-em-drama-diz-filosofo.shtml

domingo, 15 de março de 2020

Um novo plano velho para a educação




A agenda do Congresso Nacional, tão logo tenha fim a pandemia do Covid-19, inclui a discussão da chamada PEC 188.Dentre outros pontos igualmente fundamentais, a proposta do governo federal incorporada à PEC do Pacto Federativo exime o poder público de investir na construção de escolas quando houver falta de vagas e cursos regulares. Com isso, a concessão de bolsas de estudo passa a ser a cartada do ministro Paulo Guedes para suprimir a até então responsabilidade constitucional do Estado de oferecer bancos escolares públicos na educação básica. O raciocínio da terceirização é simples: eu deixo de fazer e delego a função a outro, remunerando-o por isso. Este é mais um passo em direção ao cada vez mais amplo liberalismo econômico reforçado com o Pacto.

Para que tal dispositivo passe a valer, será necessário alterar a Constituição Federal, já que o texto de 1988 estabelece em seu artigo 205 que o acesso à educação é dever do Estado e direito de todo cidadão. Quanto ao financiamento de bolsas de estudo, o trecho constitucional que faz menção ao auxílio (artigo 213, parágrafo 1º) precisará ser alterado, pois a exigência para que o aluno seja beneficiado deixa de ser apenas a demonstração de insuficiência de recursos, precisando o candidato passar também por um processo de seleção. A meritocracia será parâmetro num universo que prima pela falta de equidade, reflexo da desigualdade social extramuros.

Some-se a isso a proposta de exclusão na mesma PEC da obrigatoriedade do uso exclusivo de 18% de recursos arrecadados pela União na educação. Na confluência de todas essas estratégias, o governo federal não precisará mais construir novas escolas nem ampliar as já existentes quando houver aumento de demanda, enquanto a política das bolsas de estudo possibilitará que os cofres do governo fechem suas torneiras para a educação pública e assinem uma espécie de doação do filho à iniciativa privada.

Em 1961, a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) foi aprovada depois de 11 anos de discussão, engavetamentos, esquecimentos, desinteresse e até o desaparecimento da própria lei. Exigida pela Constituição de 1946, a LDB foi debatida mais enfaticamente a partir do final da década de 1950. O deputado Carlos Lacerda, com a apresentação do Substituto 2.222-A/57 instigou um prolongado e vigoroso debate a respeito de, fundamentalmente, a quem cabe decidir sobre a educação de crianças e adolescentes.

Até a promulgação da Lei 4.024/61 em 20 de dezembro daquele ano, sob o governo João Goulart, calorosos debates colocaram em polos opostos defensores da escola pública e privatistas. Em defesa da escola pública laica, universal e gratuita educadores, intelectuais e políticos que usavam alguns dos principais jornais de grande circulação e a revista Anhembi, enquanto religiosos católicos, proprietários de escolas particulares e liberais econômicos valiam-se do argumento de que o Estado se transformaria num agente ideologizador e utilizavam espaços em alguns meios de comunicação e organizações conservadoras, além da revista católica Vozes. Enquanto os progressistas consideravam que apenas o Estado poderia evitar um ensino doutrinador, os privatistas defendiam que era um direito sagrado da família e garantido pela Constituição escolher a educação do próprio filho.

Para os religiosos, a pedagogia da Escola Nova, reivindicada pelos progressistas, era tendenciosamente comunista. Com ataques constantes ao modelo pedagógico do norte-americano de John Dewey, nome tão em voga entre os educadores, e ao então diretor do INEP Anísio Teixeira, os privatistas católicos insuflavam os mais conservadores a apoiar o texto radical de Lacerda contra o ensino ateu, comunista e totalitário que haveria de ser ministrado pela rede pública.

Lacerda quase conseguiu aprovar uma lei que seria muito mais radical e que daria controle quase absoluto da iniciativa privada sobre o ensino no país, não fosse a emergencial interferência de opositores para evitar a manobra. No fim, um texto mais flexível acabou por agradar relativamente ambos os lados.

Em vários dos artigos da Lei 4.024 estabelecem-se as normas de aplicação das bolsas de estudo que o governo é obrigado a conceder a pais que desejarem matricular seus filhos em escolas particulares. Às bolsas, acrescentam-se auxílios, subvenções e subsídios aos estabelecimentos. Cria-se assim um vantajoso mecanismo para as escolas particulares e um álibi para um Estado que convivia com sérios problemas orçamentários, sociais e econômicos “mais importantes” para resolver. Com um índice de analfabetismo de cerca de 50% e números vergonhosos de crianças fora da escola por falta de vagas, abandono ou evasão, o governo lavava as mãos em relação ao déficit educacional brasileiro.

A política da cessão de bolsas de estudo passou incólume ao golpe o militar e tornou-se um dos mais polêmicos pontos de disputa no cenário político, empresarial e sindical. Sem controle disciplinado do MEC, a distribuição de bolsas estendia-se a deputados e senadores – cada um com uma determinada quota para ser distribuída sem qualquer critério em seus redutos –, a sindicatos de trabalhadores – que reclamavam constantemente dos atrasos e extravios –, e aos estados da Federação, que não prestavam contas sobre a distribuição aos municípios.

Ao longo dos anos seguintes, denúncias das mais variadas davam conta de proprietários de escolas mais conceituadas que cobravam taxas extras e percentuais nas mensalidades para conceder vagas, ainda que beneficiados pelas bolsas de estudo, e desvios das mais diversas naturezas, desde alunos inexistentes até a não comunicação de desistentes. Em contrapartida, estes reclamavam do atraso do governo e, em represália, não ofereciam vagas a quem os procurasse. Nos lugares mais afastados e pobres, a iniciativa privada não tinha nenhum interesse em se estabelecer, o que agravava o problema. Nos grandes centros, os índices de abandono e reprovação dos bolsistas em escolas de alto padrão eram enormes, reforçando a tese da reprodução social por meio do insucesso premeditado e incentivado.

Num exercício de mea culpa, a revista Vozes publica em outubro de 1968 um artigo do educador católico cearense Lauro de Oliveira Lima que reconhece o fracasso do modelo privatista. “Jamais os proprietários de colégios comercializados teriam enriquecido à custa da fome da educação do povo brasileiro sem a cobertura maciça e o respaldo ideológico dos diretores de colégios religiosos, cujos objetivos (diga-se a bem da verdade) jamais incluíram locupletação individual, como é evidente. Foi a luta mais mesquinha e inglória que duas instituições já mantiveram no Brasil: professores, alunos e pais de um lado e os “tubarões do ensino” do outro [...]. Esta luta solapou o prestígio dos educadores religiosos e politizou, rapidamente, os estudantes secundários, que chegavam a enfrentar a polícia em sua luta contra as anuidades. Os religiosos chegaram a treinar os jovens burgueses para enfrentar os filhos da classe média e proletária...”.

Naquele tempo também a justificativa era pragmática: é mais barato ao Estado financiar a iniciativa privada do que construir, aparelhar e manter escolas. Nos anos 1960 defendia-se o direito das famílias de escolher a educação dos filhos, hoje, nem pais nem filhos são consultados nem levados muito em conta diante do possível lucro do capital e do escancarado abandono por parte do Estado. Naquele tempo, as bolsas de estudo não eram concedidas ao ensino primário – correspondente hoje ao Fundamental I –, pois não interessava à iniciativa privada dar acesso a um volumoso contingente que abandonava os estudos ainda durante o primeiro ano, preferindo contar com os privilegiados que chegavam ao ensino secundário e teriam mais chances de se manter nos bancos escolares e garantir aos donos de escolas, assim, os proventos com mais constância.

Aquele tempo encerrava uma realidade diferente da atual. Diante da falta de acesso universal, as medidas procuravam oferecer uma falsa oportunidade que se dissiparia meses depois diante da impossibilidade de garantir aos mais pobres a continuidade dos estudos. Hoje em dia, com a universalização do acesso e da obrigatoriedade da matrícula, as preocupações são outras. A educação, transformada em produto comercial há muito tempo, estará mais que nunca sob o jugo do mercado, entregue a manipulações políticas de interesses exclusivamente do capital, sob a vigilância de um Estado sem o mínimo interesse ou disposição de lançar mão do controle caso os caminhos apontem para uma confluência com suas ideias liberais.

É prudente lembrar que os tubarões são os mesmos, ainda que com nomes mais modernos e completamente dissociados dos princípios religiosos de outrora, só que mais vorazes e traiçoeiros, pois mais aparelhados e empoderados.

sábado, 14 de março de 2020

Taí a imprensa!


A pandemia do Covid-19 serviu para resgatar a importância da imprensa. Em meio a constantes ataques aos meios de comunicação vindos principalmente do meio político e de ampla maioria do eleitorado que apoia tais pessoas públicas, a mídia séria e responsável foi a principal depositária da confiança da sociedade civil para alimentar-se de informações sérias a respeito do surto que amedronta o planeta.

Ao sentir-se vulnerável diante de uma ameaça que apenas fontes sérias poderiam esclarecer a real situação, a evolução do número de casos que não mais escolhia países ou continentes e as consequências do possível contágio próprio, o cidadão preferiu os principais meios de comunicação ao Twitter ou às redes sociais. Apesar de alguns ainda resistirem a admitir, a checagem das informações advindas de postagens particulares ou suspeitas ocorria junto aos portais de notícias (desta vez) confiáveis.

Interessante a reação popular, pois coloca em xeque a defesa fervorosa de tuitadas “oficiais” ou mensagens disparadas por softwares. Se a mídia é confiável para falar da saúde mundial num contexto caótico e incerto, por que deixa de ser quando o assunto é política ou economia?

Imagine uma pandemia como a que estamos vivendo sem o acompanhamento hercúleo de uma imprensa que vira 24 horas há alguns dias atualizando dados, publicando procedimentos básicos de cuidados higiênicos (enquanto fake news recomendam beber álcool 70° ou parar de tomar sorvete), divulgando notas e medidas oficiais a cada minuto e monitorando o mapa da disseminação no país e no mundo. Imagine todas as mídias em silêncio absoluto nos últimos 60 dias.

Imagine agora uma sociedade democrática sobrevivendo sem uma de suas instituições fundamentais, sem cobrir os mandos e desmandos de qualquer um dos três poderes. Permitindo que Executivo, Legislativo e Judiciário exerçam suas funções da maneira menos republicana possível e que o único acesso que a sociedade civil tenha a tais ações seja por meio das mensagens de cada representante em suas páginas pessoais das redes sociais? Imagine a sanha de poder sem as rédeas de uma imprensa presente, persistente, insistente e resistente.

Ainda que seja necessário rediscutir constantemente o jornalismo, não se faz um país democrático sem uma imprensa livre. Não se cura um planeta sem uma imprensa incansável.

domingo, 8 de março de 2020

O blog Jornalismo Contemporâneo – Reflexões e Provocações propõe-se  a debater o jornalismo atual como instituição fundamental à democracia e os contextos nacionais e internacionais que interferem em sua atuação.
A mídia precisa criticar como precisa ser criticada, principalmente por si mesma. Mas não pode sucumbir a surtos nem planos antidemocráticos. Sem ela, o caminho é sombrio. Sem seriedade e humildade, a própria mídia se asfixia.